terça-feira, 29 de setembro de 2009

Será que agora acreditam?

Eugênia sempre dizia que não ia fazer isto ou aquilo porque estava no fim da vida.
Ah, pra quê comprar um edredon novo? Já estou no fim da vida.
Imagina que eu vou fazer implante dentário? Aguento mais um pouco. Já estou no fim da vida mesmo.


Se isso costuma ser indício de depressão, desmotivação ou simples conformismo não sei. Só sei que Maria Eugênia dizia sempre o mesmo. Mas a moça tinha outro motivo: era totalmente hipocondriaca. Acreditava sim no fim próximo.

Trabalhava nos correios e estava todos os dias com essa fala na ponta da língua para quem quisesse ouvir. Dor aqui, dor ali ... "_ai como eu sofro ..."
Falava isso há tanto tempo e tantas vezes, que quem ouvisse de passagem poderia estranhar ao reencontra-la viva, um mês ou dois depois.

_ Mas não é que a moça do Correio ainda está viva, Euclides? Sim, aquela que pensamos estar doente porque não parava de dizer que estava no fim da vida ... Está vivinha da Silva, Euclides.


Mas e a morte?

Eugênia sempre dizia que mais cedo ou mais tarde ela iria acontecer. Iria parar direto no caixão.
Os amigos, já não a convidavam para nenhum programa a longo prazo. De tanto falar parece que ficou na mente de todos que não adiantaria "programar um programa" porque talvez Eugênia não fosse durar até lá.

E também, do que adiantaria convidar? Ela sempre tinha uma duas ou tres doenças acontecendo ao mesmo tempo. Não iria com certeza à nenhum compromisso, a pobre.


Até que a vida findou-se mesmo.

Morreu alguns meses depois de ganhar na Mega Sena. Dinheirão. Disseram que foi difícil receber o premio. Parece que o RG estava muito velho e com manchas de xarope. Ai meu santo.

Após ganhar o prêmio, Eugênia ficava em seu apartamento comprando algumas coisas pela internet e fazendo seu estoque de materiais no quartinho dos fundos.

Rica e morta. Parece que a morte esperou Eugênia ficar rica, para enriquecer também. Enriquecer sua lista negra. Desgraçada.

Só sei que foi assim. No dia do enterro, os convidados e amigos ficaram sabendo o que tanto Eugênia comprou durante seu mês de riqueza.

Faixas, coroas, banners, santinhos e sua lápide. Todos traziam os mesmos dizeres: " _ E então amigos, será que agora acreditam?"

Mulherzinha rancorosa.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pede passagem, pede.

Murilo sempre passava muita raiva no transito.
E quase sempre pelo mesmo motivo: gente que vem no maior "pau", na rua ou estrada, dando farol e seta na faixa da esquerda e pedindo passagem igual louco.

Uma vez foi um executivo playboy. Deu farol. De novo. E outra vez.
Que saco, pensou Murilo. Afinal, ele estava dentro do limite e sabia que um pouco mais à frente havia um radar. Mas não queria sair da faixa da esquerda porque as outras estavam muito lerdas. E tinha pressa.
O playbas lá - acho que tinha mais pressa ainda. Farol e seta. Seta e farol.
Murilo saiu da frente, fazer o quê? Mas que raiva.

Uma outra vez foi o Opalão preto. Sabe quando o cara finge que é da polícia e manda ver naquela sirene móvel comprada na Stª Efigenia? Murilo se deparou com um desses. O Opalão vinha há uns 160 km por hora. Certeza. E certeza também ia entrar na sua traseira se ele não tivesse dado passagem.

Mas no dia em que ele sentiu o sangue nos olhos foi com a Kombi cheia de freiras. Essa foi na Sena Madureira. Depois que acabou foi até engraçado. Mas na hora deu raiva pra valer. As freiras vinham feito loucas pela avenida.

Buzinavam e andavam fora da faixa delas. Murilo achou que estavam sendo perseguidas. Mas depois de assistir o jornal das 20h ficou sabendo do caso na integra. As freiras costumavam passar por ali sempre. E todo mundo sempre se esquivando das amalucadas.
Elas tinham costume de beber muito vinho nas missas. Um pouco mais do que Jesus conseguiria multiplicar.

Murilo sempre dizia para a namorada o que faria a respeito se tivesse muito dinheiro.
Parece que o ouço daqui:
_ Olha, Darlene (Darlene era conhecida por servir bem para servir sempre), se eu tivesse grana eu ia arregaçar meu carro nesses caras que tem essa mania de costurar no transito igual loucos e que ficam fechando a gente! Ah eu iria.

Dinheiro para pagar consertos ele teria. E para detonar quantos carros quisesse também. A idéia era só dar o troco para aquele bando de motoristas de Domingo.

Murilo jogava várias vezes por mes na Mega Sena. Em quase todos os jogos.
Um dia ganhou. E não teve dúvida com o que ia fazer com 15% da grana: comprou carros.

Sim, carros. O dinheirão é dele e ele faz o que quiser, are baba.

Comprou 07 carros usados e blindou.
Fora a camada de vidro inquebravel, Murilo brincou de customização: mandou colocar por fora dos carros vários espetos de aço com as pontas voltadas para fora.
Nos pneus mandou grudar canivetes que espetariam até a alma das suas canelas, se você passasse do lado. E atrás, colocou canos de ferro cilindricos. Uns 15.

Isso feito, foi pras ruas. Cada dia com um carro. E ficou só esperando. Na faixa da esquerda.

Passou um mauricinho louco com seu Audi brilhando. Farol e seta. Murilo só freiou. SCATAPLAF. Nunca se viu uma frente de Audi tão cheia de furos redondos. Até onde sei eram só 4 aros. Sorte do mauricio que a Audi ama air bags.

No dia seguinte a mesma coisa. E no outro dia e no outro, e assim Murilo deu o troco a quase todo mundo. Foram seis dias, seis carros blindados estourados e seis trocos bem dados.

Mas faltavam as freirinhas.
Murilo ficou à espreita. Quando viu a bendita Kombi branca cheia de hábitos marrom escuro, não se segurou. A Kombi veio encostando, saindo da faixa, encostando, e mais, e mais ... POW! Encostou.

Nunca se viu um pneu emitir um som tão alto ao explodir.

Murilo tomou o cuidado de fazer a coisa de forma a só dar um susto na freirada. Ninguém se machucou.

Mas dizem as más linguas que até hoje, se você procurar bem no meio fio, corre o risco de achar um ou dois terços.
To chocada.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O golpe da Neoskin

Paula tinha muitos pelos no corpo.
Que coisa ruim. Muito pelo no corpo nunca é agradável, a menos que você esteja falando de abraçar uma girafa de pelucia. No inverno.

Mas Paula tinha um plano. Conhecer os serviços da nova rede de depilação à laser do Brasil: Neoskin. Esse tipo de serviço é caro mas vale a pena. Aceita cartão, tá ótimo.

Foi logo entrando na primeira clinica que encontrou. Era bonita. Sofás e paredes traziam cores alegres de verão. Verão sem pelos.

Atendimento bacana, dermatologista de plantão.
Fez contrato de 12 sessões nas pernas, axila e virilha. E estava feliz da vida.
Primeira aplicação realizada, foi-se embora contente. Contente e melada, tanta pomada passaram nos locais da aplicação. Mas vale. Oh se vale.

Feliz e contente ficou uns 15 dias depois, quando todos os pelos cairam. Ai que alegria! Nem se podia crer. Mas a dermatologista avisou: Paula, querida, isso é ilusão. Esses pelos vão voltar a crescer e só vai se livrar mesmo deles após a 10 aplicação. Ai não voltam mais.

Ok. Mas naquele dia mesmo colocou um micro biquini e foi pra praia. Queria mostrar o que não tinha: pelos.

A cada sessão os pelos caíam e depois voltavam mais finos. Mas ainda tinha bastante.

O fato é que lá pela terceira sessão Paula começou a sentir dificuldade para marcar suas consultas. As atendentes da clinica sempre diziam que as maquinas estavam quebradas, e só no mês que vem talvez a situação voltasse ao normal.

Mas foi assim por 8 meses. Marca, desmarca, marca, desmarca.
Com as clinicas fechando as portas, não foi só Paula que ficou sem atendimento.

Ligava para a empresa, e nada. Ia na porta de uma; fechada. De outra; fechada também.
Viu na internet que a tal Neoskin já havia dado o mesmo golpe no Mexico, e agora pelo jeito, estavam fazendo isso no Brasil.

Em Agosto todas as unidades Brasil já tinham fechado de vez. Os contratos em aberto de atendimento? Não sei não. Por quê? O certo seria ressarcir os consumidores?
Ah, sim, e o coelhinho da Pascoa vai te trazer o quê ano que vem?

Mas Paula ficou lá. Sentada, peluda e p. da vida.
Olha, mais p. do que peluda.
Mas menos sentada.

Levantou, e foi à loterica.
MEGA SENA na cabeça.
GANHOU.

Divulgou para os 4 cantos que havia ganho na Loterica e que em nome dos ex clientes Neoskin ela resolveu pegar 15% da grana e investir na compra das unidades que estavam fechadas.
Ia levantar a empresa e ainda ganhar uma grana.

Tentou por 3 meses ir atrás do responsável pelo tal golpe para fazer uma oferta mas nada. A pessoa já devia estar nas Ilhas Caimann pelo jeito.

Anunciou no jornal, revistas, TV.

Até que um dia, envolta pela proposta indecorosa da grana, eis que surge, BELTRANA DA SILVA, a empresária mais odiada pelas peludas de plantão. A f. da mãe que deu o golpe da Neoskin.

Paula marcou reunião para tratar da negociação da rede de depilação à laser.
Segunda feira, meio dia.

Ás 13h00 a polícia chegou ao local, numa ação previamente combinada com e por Paula.
Beltrana da Silva saiu da sala roxa. E algemada.

Paula? Hoje já não tem mais um pelo no corpo, amiga. Se tratou com uma das dermatologistas mais TOP de Miami. Inclusive mudou-se para lá.

Mas deu o troco na Neoskin.

OBS. Esse texto foi escrito para os que assim como eu, caíram no golpe da Neoskin. Utopia? Não sei ... talvez somente uma idéia que possa um dia ser usada.

http://vitimasdaneoskindobrasil.blogspot.com/2008/12/as-mquinas-quebradas-da-neoskin.html

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sob nova direção.

Cecília trabalhava há quase 6 anos na Sacoo.
Sua chefe se chamava Alvara.
Já começa pelo nome esquisito.
Sua outra esquisitice fora o nome é ser TO TAL MEN TE bipolar.

Para Ceci, trabalhar para Alvara era terrível.
Precisa, logo trabalha.

Já espalhou tanto curriculo que não sei como ainda não mudou de emprego.
Aliás, sei sim.
Ceci tem tão pouca sorte que quando telefonam para ela convidando para uma entrevista de emprego, quase sempre o evento cai em um horário impossível para desculpas.

Uma vez pediram que comparecesse à entrevista na hora do almoço. Até então seria fácil.
Mas justo nesse dia Alvara apareceu com dois tickets alimentação, dizendo que precisavam conversar sobre um projeto novo de um cliente.
E lá se foi mais uma oportunidade de se livrar da louca.

Alvara era assim: louca de doer.
No final da manhã de terça feira estava bem humorada que só. Brincalhona, sentou no chão da empresa e discutiu números comendo uma tangerina.
Falou do passado e de como seu pai lidava com o medo de formigas. Quando falou da mãe ficou um pouco chateada. Chorar não chorou, porque isso ninguem nunca viu.

Já por volta das 15h30, voltando do almoço de 3 horas de duração, Alvara chegou apavorando. Já na recepção ao ser abordada pela secretária que queria apenas passar um recado, surtou geral:
_ Estou com tendinite, gente. Dá pra vocês falarem rápido comigo? Se não for importante por favor não falem nada. Não perguntei nada para vocês.

Quando entrou na sala, Ceci sem saber da mudança de humor foi logo perguntando: E seu almoço, Alva? Foi bom?
Ouviu o que não queria: _ Ceci, por acaso te devo satisfação de alguma coisa? Você está entendendo? Ceci, você está entendendo ou não? Dos problemas do cliente cuido eu. Entendeu?

Sim, Cecilia sempre entendia.
Mas continuava sem entender.
Louca, é a mãe.

Pior foi o final dessa tarde. Passando novamente pela secretária, teve outro surto bipolar e saiu gritando: _ Cleide, por acaso você vai me esconder os recados? Olha, estou muito chateada com o seu trabalho. Se não serve para passar os recados então para que serve? Por que não me passou os recados quando cheguei? Passasse por e-mail, sei lá.

Sim, louca era a mãe.

Mas a vingança é a ultima que morre.

Um pouco atrasado, eu sei, mas chegou o grande dia para Ceci!
Num dos momentos que conseguiu escapar por 10 minutos havia ido à loteria e arriscado uma fézinha.
E GANHOU. Cecília finalmente estava prestes e se livrar da bipolaridade ambulante.
Mas se livrar era pouco. Queria dar o troco.

Um mês e meio de negociações depois, Cecília anunciou: Havia comprado a empresa concorrente e feito uma proposta de compra da empresa em que trabalhava.
Na fusão, seriam únicos naquele negócio. Trabalhavam com produção de embalagens plásticas de arroz. Nesse segmento, somente existiam as duas empresas no país.

Cecilia comprou a empresa (a oferta que fez à diretoria foi irrecusável).

A Sacoo e a concorrente, agora eram dela.

A única coisa que se soube depois, é que com a nova fusão, todos os cargos de chefia da Sacoo foram substituidos pelos profissionais da ex concorrente. E quem decidiu isso foi Cecília.

Sem ter quase nenhuma oportunidade no mercado, afinal seu trabalho era muito específico, não se soube mais muita coisa de Alvara depois da tal fusão.

A ultima pessoa que a encontrou, ninguem sabe se é verdade, disse que a viu saindo de um instituto de psiquiatria avançado.

Sei lá. Imaginei que se um dia ela entrasse em tal lugar, não conseguiria mais sair.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

What are you doing, seu trouxa?

Viviane estava no Twitter.

Pra quem não sabe o que é o Twitter dou a dica (procura no Google porque ele vai te explicar melhor que eu. Agora, se não sabe o que é Google aí você me desanima).

O fato é que Viviane estava lá. No Twitter.

Perfil meio indefinido. Um pouco de humor e um pouco de administração de empresas que era a sua área.

Tres meses de Twitter e tinha só 70 seguidores. Postava quase todo santo dia e pra cada 5 posts ganhava um novo adepto. Ufa, era suado viu?

Sonhava em trabalhar como humorista e fazer stand up.
Área concorrida. Mas ela queria.

Só sei que tinha semanas que Viviane ganhava 15 seguidores. Em outras perdia 15.
Que sofrimento do cão segurar esse povo na sua página.

Todos os dias entrava no You Tube bem cedo e arrumava algum video novo BOM pra caramba. Postava. Mandava o link. NADA. No máximo deixava de perder um ou dois followers.

Foi a primeira brasileira a postar a danada da última foto de Michael vivo. NADA. Passou a ser seguida pela @Sexmachine. Fora isso, tudo continuava igual.

No final estava assim: ganhava um e perdia 7.

No dia em que GANHOU NA MEGA SENA estava com 43 followers.

Com raiva (na alma) do povo que a deixou de seguir, assim que recebeu a grana do prêmio fez sorteio de um Land Rover de 400 mil entre os poucos admiradores de sua obra que ainda estavam lá, fiéis.
Depois disso (e sabiamente fez DEPOIS) contratou um blogueiro dos bons pra divulgar o sorteio que havia sido feito na manhã do mesmo dia. Super boca a boca. Com direito a viral e explosão no You Tube.
Em 40 minutos estava no Trending Topics : #VivianeLandRoverBrazil.

Depois, antes de abandonar de vez a tão atual rede social, comprou o perfil do Tas e do Luciano Huck.

Começou a postar no perfil deles e prometeu que quando chegasse ao primeiro milhão de fiéis nos dois perfis sortearia outro carro. Dessa vez um Jaguar.

Foi parar no primeiro lugar do Trending Topics em menos de meia hora.

Followers 1.000.000! Recebeu até e-mail especial cheio de estrelinhas direto do Twitter.

Seu próximo post antes de cancelar as contas dela, do Tas e do Huck:

TROUXAS DE PLANTÃO; NEM SEMPRE O DINHEIRO COMPRA TUDO.
O MEU COMPRA, O SEU NÃO. Estou indo pra Europa. E você? WHAT ARE YOU DOING?

domingo, 5 de julho de 2009

Mês que vem eu volto!

Todo santo mês, Sr. Fausto entrava na loja de carros novos e semi-novos da esquina.

Com seu terno já meio surrado mas ainda alinhado, se arrumava bem e ia.

Os vendedores já o conheciam havia um bom tempo.

Entrava, já com cara de desdém, ia de carro em carro.

Algumas vezes, um vendedor novo, sem imaginar o motivo de os outros passarem a vez, ia se apresentando:

"_Bom dia/boatarde/boanoite, meu nome é Marcos, em que posso ajudar?"

Sr. Fausto olhava o rapaz, de cima à baixo. E de novo. E mais uma vez. Nem responder respondia.
Quando respondia, era mal educado:

_ Olha meu rapaz, ajudar você até ajudaria se pudesse encontrar aqui na loja um carro bom para mim. Estou cansado de vir à esta loja e nada de novidades e nem de carro bom. Só lata velha (salve Luciano Huck).

Os vendedores já nem faziam mais questão. Mas principalmente Olavo.
O mais antigo vendedor da loja já estava de saco na lua por conta do homem.
Ah, muito tempo de loja né? Muitas visitas do Sr. Fausto. Desde que Fausto ainda não era nem Sr.

Quando o supervisor da rede estava na loja, Olavo era obrigado a atender Sr. Fausto. Dizia o supervisor que cliente difícil tem que ser atendido pelo mais antigo vendedor, assim a venda fica mais fácil.

Não sei de nada. Só sei que quando Olavo via Sr. Fausto já começava a suar. ODIAVA ter que atender o velho.

Após tantas visitas regulares, os vendedores achavam que na verdade, Sr. Fausto não tinha era grana para o carro.

Se tivesse, já teria se interessado por algum, afinal, era uma visita por mês e nada. Só insultos. E oras bolas, algum carro teria interessado o homem que visitava a loja há uns 8 anos no mínimo. Mas nunca assumiu interesse real por algum veiculo.

Motivos? Nenhum que me convença.

Uma hora era a nova cor do Peugeot. Imagina, cinza manitoba. Nunca! Depois rala o carro por aí e como é que se acha essa tinta de cor nova? Ah, não!

Voyage relançado? Ah, o quê é isso? Não se respeita mais a nostalgia. Virou carro de bacana. Bons tempos quando tinha o meu ...

E essa frente nova do Gol? Não senhor. Gol era bom mesmo antigamente. Agora tá mais pra carro importado. E carro importado chama muita atenção. Peirgoso. Mês que vem eu volto!

E voltava mesmo.

"_Olha, não venderam o Jaguar ainda né? Algum defeito deve ter esse carro. Nunca sai."

Apesar de todo o desprezo pelos carros da loja, todos sabiam que no fundo, o coração velho do velho batia mesmo era pelo Jaguar. Uma relíquia. Bonito que só. Preto. Imponente. Os vendedores já haviam perdido a conta de quantas vezes o homem havia entrado no carro.

Todos reparavam que a vontade era de levar o Jaguar pra casa. Mas não dava pra confidenciar que a grana não daria. Tinha que existir alguma desculpa esfarrapada: "_Ah, se eu não tivesse rinite alérgica, eu levava esse. Vou ver se passo no alergologista e faço um tratamento. Apesar de que esse carro mais parece uma banheira de luxo ... Bom, mês que vem eu volto!"

O caso é que nada de comprar nunca.

O pior era a falta de educação do velho. Tratava a equipe e os carros todos com desdém. Olavo já havia brigado umas 3 vezes com o homem. Se segurou umas 18 mas bate boca mesmo só 3.

Tanto Olavo quanto Fausto jogavam frequentemente na Mega Sena. Olavo até viu um dia o outro na lotérica. Chegava a torcer por ele para que até que enfim, quem sabe, o homem pudesse entrar na loja e realizar a tão esperada compra.

Mas quem faturou mesmo a bolada, em um belo dia de sol, foi Olavo, o vendedor.

Não hesitou.

Simplesmente comprou a loja com o estoque todo dentro.

No final do mês lá vinha ele. Com seu terno surrado, mas nem tanto.

Quando Sr. Fausto chegou na porta da loja, um cão começou a latir sem parar.
Estranhou o portão fechado e a placa: Propriedade Privada - Proibida a Entrada Não Autorizada.
Mesmo assim tocou a campainha. DIN DON ... DIN DON.

Quem aparece para abrir a porta é Olavo.

Sorridente, foi logo abraçando Sr. Fausto: "_Fausto, Fausto, como vai? - Veio ver se até que enfim conseguimos algum carro bom o suficiente para você não é?"

É uma pena, homem, mas a loja já não existe mais. Agora é toda minha.

Sim, Fausto. Comprei a loja inteira e agora ela virou estacionamento para meus carros todos.

Larguei a vida de vendas porque já to cheio da grana ... E lembrei muito de você quando comprei a loja. Pensei: POXA, ACHO QUE VOU DAR ESSE JAGUAR AQUI PARA O FAUSTO.

Mas depois lembrei: MALDITA RINITE. Não vai dar. Que pena.
Peguei a carcaça do bicho e um arquiteto de renome e montei uma BANHEIRA DE LUXO lá na minha casa nova. Ficou bom viu? Até que você tinha razão!

Nesse dia Olavo dormiu tranquilo.
Quem não dormiu foi Fausto. Mas que repensou sua forma de ver a vida, ah isso fez.

domingo, 28 de junho de 2009

Expedito, cabra safado.

Expedito era um cabra tão safado que não sei não.

No seu emprego, cobrador de ônibus, ele com certeza conhecia muita mulher.
Sua melhor cantada era encostar o bilhete que destravava a catraca para a mulherada bonita passar sem pagar. Depois disso, dizia com gosto: "_ Depois tu me paga como puder, princesa."

Afffffffff ....

No seu ônibus não valia a máxima do "mulher bonita não paga mas também não leva". Levava sim.

Falando assim não parecia, mas o infeliz era casado.

Passeio com a esposa? Quase nenhum.
De vez em nunca, levava a mulher ao CTN (Centro de Tradições Nordestinas).
Mas não gostava não, porque lá muitas vezes acabava encontrando com alguma princesa do ônibus. Aí ficava chato. Tinha que fingir que não viu.

A esposa, moça humilde, trabalhava em casa de família e criava 5 filhos.

No dia que contou pra Dito que estava grávida do 5 filho (assim chamava o marido desde que se conheceram, no ònibus), nada aconteceu.
Primeiro o cabra nada de chegar em casa. Esperou a tarde toda e parte da noite. E nada.
Quando chegou, foi logo dizendo que a culpa era sempre do transito infernal e da viagem que "tive que fazer a mais, porcausaque Laércio faltou. Tive que substituir e nem vou ganhar a mais porque o mês já fechou. Acredita muié?"

"_Acreditar não sei se acredito não seu cabra safado. - E ontem? De tanto chegar atrasado daqui a pouco o Laércio vai ser demitido. Mas e você hein? - Acredita que tô prenha de novo? Você trate de se ajustar agora, homem!"

"_Calma, mulher! Brigue não princesa. To ajustado.
Demorei ontem porque parei ali pra conversar com o Tião do Trem. O dono "das lotação" aqui do Campo Limpo. O cara tá separado, muié. Tava tomando umas com o parceiro."

"_Dito, vc não me tira do sério não que to prenha. E você lá é parceiro do Tião em quê hein?'

"_Poxa, mulher."


Mas o casamento rolava assim há 13 anos. Os filhos agora já não eram mais tão pequenos. Tinham de 5 a 12 anos.

Mas acho que pra Zete, o pior de tudo mesmo, era a adoração que o danado do marido tinha pela banda Bundinha do Forró.
O Bundinha era formado por 4 pistoleiras (isso na visão da mulher, claro) que ficavam dançando de shortinho em tudo o quanto era programa da tarde. No verão e também no inverno! Era Faustão, era Gugu. Era Netinho de Paula. As desgracentas iam onde o povo estava. Até show no CTN já tinham marcado pra Julho.

E o desgramado do marido não perdia uma foto e nem uma reportagem da banda.

Naquela tarde de terça, sei lá por qual motivo, Zete resolveu jogar na Sena.
E ganhou. Mas por algum motivo achou que não era a hora de contar ao marido.
Esperou.

Marizete ficou Junho todo acertando a vida.

1 - Foi à Caixa receber a bolada.
2 - Convidou Tião do Trem para uma conversinha de negócios.
3 - Cortou cabelo, alisou. Na dúvida botou também um alongamento de responsa. Cacheado.
4 - Passou na concessionária e encomendou um dos carros mais caros. Nacional, mas os olhos da cara.
5 - Foi ao CTN e comprou camarote VIP para o show do Bundinhas do Forró. Comprou o camarote todo, apesar de que usaria apenas dois lugares.
6 - Aquele show ia ser bom. O maridão merecia.

AH, se merecia.

No dia do grande show e já toda arrumada Marizete olhou no relógio: 7 horas, 8 horas, e nada do marido, que já era para estar lá desde às 15h, afinal, fazia o turno das 7h da manhã até 14h.

Mas já sabia que o desgramado ia aparecer em casa por volta da madrugada, dizendo que ficou de papo furado com Tião ou que teve que cobrir Laércio.

Mas ok. Já estava com tudo armado.

Pegou tudo o que era do marido e encheu 12 sacos de lixo dos grandes. Jogou tudo pra fora da casa e trocou a fechadura. Tudo isso fez durante a tarde. Antes da manicure, afinal, não ia estragar as unhas.

Quando era 21h00 ela chegou à porta do CTN.
Estava bonitona mesmo. Parecia até uma estrela. Parecia até uma dançarina do Bundinhas do Forró.

Fora ser o dia do show, era dia de festa junina no CTN.
Avistou o marido de longe enquanto chamava o povo do correio elegante.

"_Toma lá meus filhos - entrega alí pra aquele desgraçado. NÃO, aquele alí. Do lado. Isso. Aquele."

"QUERIDO DITO, SEU CABRA SAFADO. GANHEI NA MEGA SENA. TÔ TE VENDO AQUI NO SHOW. LIGUEI NA SUA FIRMA E O LAÉRCIO FOI TRABALHAR NORMALMENTE. O TRANSITO NA CIDADE ESTÁ ZERADO.
E O TIÃO DO TREM NÃO PODE ESTAR AÍ COM VOCÊ PORQUE ESTÁ COMIGO. AQUI NO CAMAROTE VIP.

PS. Nem adianta voltar pra casa porque já troquei as chaves. As cópias novas dei pro Tião do Trem. Aliás, não foi só isso que dei pra ele não e com parte da grana virei sócia nas lotação.
Inté manezão."